terça-feira, 6 de março de 2018

A verdade através da dialética


“…Amem a verdade e seus frutos de vida, por si próprios e pelos outros…” [1]
 “…A verdade vem aos que a amam, aos que se submetem a ela, e esse amor não ocorre sem virtude…” [2]


"Todos os homens têm, por natureza, desejo de conhecer".[3] Leio a sentença inicial da Metafísica de Aristóteles e vejo uma disparidade enorme com a realidade que me cerca, afinal, diariamente me vejo cercado de pessoas que não querem conhecer absolutamente nada e estão satisfeitas com suas ideias pueris e suas certezas a respeito de tudo. Como diria Jose Ortega Y Gasset, pessoas que não exigem nada de si mesmas, bóias à deriva!

Estaria Aristóteles errado? Creio que não, evidente que ele se referia à sua época e à natureza humana de forma geral, e não à cabeça dos brasileiros.




Mas por que nos dias de hoje, quase ninguém busca conhecer a verdade? Primeiro porque dá trabalho, requer estudo e esforço. Segundo porque a maioria das pessoas se satisfaz com lindos discursos retóricos e os adotam a priori, fazem juízo sem usar o crivo da razão. São persuadidas por discursos retóricos que na maioria das vezes são bastante verossímeis, aparentemente coerentes, consoladores, e trazem "paz" para o interlocutor.


"...Na retórica antiga, o ouvinte é chamado juiz, porque dele se espera uma decisão, um voto, uma sentença. Aristóteles, e na esteira dele toda a tradição retórica, admite três tipos de discursos retóricos: o discurso forense, o discurso deliberativo e o discurso epidíctico, ou de louvor e censura (a um personagem, a uma obra, etc.). Nos três casos, o ouvinte é chamado a decidir: sobre a culpa ou inocência de um réu, sobre a utilidade ou nocividade de uma lei, de um projeto, etc., sobre os méritos ou deméritos de alguém ou de algo..." [4]


Ao invés do juízo imediato, para a busca da verdade, é indispensável o processo dialético, ou, a confrontação de ideias antagônicas.


“…o ouvinte do discurso dialético é, interiormente ao menos, um participante do processo dialético. Este não visa a uma decisão imediata, mas a uma aproximação da verdade, aproximação que pode ser lenta, progressiva, difícil, tortuosa, e nem sempre chega a resultados satisfatórios. Neste ouvinte, o impulso de decidir deve ser adiado indefinidamente, reprimido mesmo: o dialético não deseja persuadir, como o retórico, mas chegar a uma conclusão que idealmente deva ser admitida como razoável por ambas as partes contendoras. Para tanto, ele tem de refrear o desejo de vencer, dispondo-se humildemente a mudar de opinião se os argumentos do adversário forem mais razoáveis. O dialético não defende um partido, mas investiga uma hipótese…” [5]


O processo dialético sincero, começa a levar o interlocutor pelo caminho em direção à verdade, o que gera outro problema. A verdade nem sempre é o que se espera, pode não ser o mar de rosas que o interlocutor imagina. Afinal, o único atributo que podemos esperar da verdade, é que ela seja verdadeira!

Amar a verdade e seus frutos, confrontar de forma sincera ideias opostas, ser humilde para mudar de opinião, não defender um partido ou doutrina, mas sim, investigar hipóteses. É com profunda tristeza que vejo isso como algo inalcançável para a maioria dos brasileiros.


[1, 2] A Vida Intelectual - Antonin Dalmace Sertinllanges

[3] Metafísica - Aristóteles

[4, 5] Aristóteles em Nova Perspectiva - Olavo de Carvalho